O STF confirmou a suspensão, por 90 dias, de multas e outras sanções relacionadas às novas exigências da NR-1 sobre fatores de riscos psicossociais no ambiente de trabalho. A decisão busca permitir maior clareza sobre os critérios de fiscalização e punição, mas não elimina as obrigações gerais de prevenção. Para as empresas, o período deve ser encarado como uma oportunidade para revisar processos, documentar medidas preventivas e estruturar a governança necessária para reduzir riscos trabalhistas e regulatórios.
STF confirma suspensão de sanções relacionadas à NR-1
O Supremo Tribunal Federal confirmou a suspensão temporária da aplicação de multas e outras sanções relacionadas às novas exigências da Norma Regulamentadora nº 1 sobre fatores de riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
A suspensão havia sido determinada pelo ministro André Mendonça em junho, no âmbito da ADPF 1316, e posteriormente foi referendada por unanimidade pelo Plenário do STF.
A controvérsia envolve alterações da NR-1 que passaram a exigir a identificação, avaliação e gerenciamento de fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho.
O ponto central da discussão não é afastar a importância da prevenção.
O questionamento está relacionado à falta de clareza suficiente sobre quais condutas concretas devem ser adotadas pelas empresas e quais situações poderiam resultar em sanções.
Por isso, o STF determinou a suspensão das penalidades e encaminhou a discussão para tentativa de solução consensual.
Para empresários, existe uma distinção fundamental:
a suspensão das multas não significa suspensão da necessidade de adequação.
O que são riscos psicossociais?
Os riscos psicossociais estão relacionados a aspectos da organização e das condições de trabalho que podem afetar a saúde dos trabalhadores.
A discussão pode envolver questões relacionadas à organização das atividades, pressão excessiva, assédio, sobrecarga, falta de autonomia, conflitos e outros fatores associados ao ambiente profissional.
Com as alterações da NR-1, esses elementos passaram a integrar expressamente o gerenciamento de riscos ocupacionais.
Na prática, isso amplia a necessidade de integração entre áreas como Recursos Humanos, segurança do trabalho, compliance, jurídico e administração.
O tema deixa de ser tratado apenas como uma questão de RH e passa a integrar a gestão de riscos da organização.
Por que o STF suspendeu as sanções?
A decisão do ministro André Mendonça destacou uma preocupação importante com segurança jurídica.
Segundo o STF, em análise preliminar, não existiria clareza suficiente sobre as condutas esperadas das empresas e as respectivas consequências em caso de descumprimento.
Essa indefinição dificulta que empregadores saibam previamente quais medidas serão consideradas adequadas pela fiscalização.
O problema ganha relevância porque normas preventivas podem utilizar conceitos amplos, enquanto a aplicação de uma penalidade exige critérios suficientemente objetivos.
A suspensão busca justamente criar espaço para que essas questões sejam discutidas e esclarecidas.
A NR-1 não foi suspensa
Esse é provavelmente o ponto mais importante para empresas.
A decisão do STF não representa uma autorização para ignorar o gerenciamento de riscos psicossociais.
As diretrizes gerais permanecem válidas.
O que foi temporariamente suspenso foi a aplicação de multas e outras sanções relacionadas aos dispositivos alcançados pela decisão judicial.
Portanto, interromper completamente projetos de adequação pode ser uma interpretação arriscada.
O período adicional pode ser utilizado justamente para estruturar processos com maior cuidado.
Empresas deveriam aproveitar o período para revisar seus controles
Em vez de tratar a suspensão como um adiamento do problema, administradores podem utilizá-la como uma janela de preparação.
O primeiro passo é compreender como a organização atualmente identifica e administra riscos relacionados ao ambiente de trabalho.
Algumas perguntas podem orientar esse diagnóstico:
- existem procedimentos para identificar riscos psicossociais?
- responsabilidades internas estão claramente definidas?
- gestores recebem treinamento?
- existem canais adequados para comunicação de problemas?
- denúncias e ocorrências são registradas e tratadas?
- as medidas adotadas pela empresa são documentadas?
- RH, segurança do trabalho, compliance e jurídico atuam de maneira coordenada?
As respostas ajudam a identificar fragilidades antes que elas se transformem em problemas regulatórios ou trabalhistas.
Documentação será especialmente importante
Um dos aspectos centrais da gestão de riscos está na capacidade de demonstrar aquilo que foi efetivamente realizado.
Não basta afirmar que a empresa possui preocupação com saúde e segurança.
Treinamentos, avaliações, procedimentos, medidas preventivas, registros de ocorrências e decisões internas precisam ser adequadamente documentados.
Essa estrutura documental pode ser relevante não apenas durante fiscalizações.
Ela também pode assumir importância em reclamações trabalhistas, investigações internas e discussões sobre responsabilidade empresarial.
Governança preventiva depende tanto da implementação das medidas quanto da capacidade de comprovar sua existência.
Compliance trabalhista passa a ter uma dimensão mais ampla
A discussão sobre riscos psicossociais reforça uma transformação importante no compliance empresarial.
Durante muito tempo, a gestão trabalhista esteve fortemente concentrada em jornada, remuneração, férias, encargos e obrigações documentais tradicionais.
O ambiente regulatório atual exige uma visão mais abrangente.
Organização do trabalho, prevenção de assédio, canais de denúncia, saúde ocupacional, treinamento de lideranças e gestão de riscos passam a dialogar diretamente.
Isso exige maior integração entre departamentos.
Um problema identificado pelo RH pode possuir consequências jurídicas.
Uma decisão gerencial pode produzir riscos ocupacionais.
Uma falha de documentação pode dificultar posteriormente a defesa da empresa.
A responsabilidade dos gestores também aumenta
A implementação dessas políticas não depende exclusivamente da alta administração.
Gestores intermediários possuem contato direto com equipes e participam diariamente da organização do trabalho.
Por isso, treinamento será uma parte importante da adequação.
A empresa pode possuir políticas bem elaboradas e ainda enfrentar problemas quando líderes não sabem como aplicá-las.
Governança exige transformar regras institucionais em práticas efetivamente incorporadas à operação.
Segurança jurídica não significa ausência de obrigação
A decisão do STF evidencia um ponto relevante para o ambiente empresarial brasileiro.
Empresas precisam conhecer previamente os critérios utilizados pelo poder público para aplicar sanções.
Previsibilidade regulatória permite planejar investimentos, estruturar procedimentos e organizar controles internos.
Ao mesmo tempo, a discussão judicial não elimina a necessidade de prevenção.
O desafio está justamente em equilibrar proteção ao trabalhador com critérios objetivos e juridicamente seguros para fiscalização das empresas.
Como a Martins, Zanchet & Espósito pode ajudar
A Martins, Zanchet & Espósito pode auxiliar empresas na análise dos impactos jurídicos das novas exigências da NR-1, revisão de políticas internas, estruturação de compliance trabalhista e organização de procedimentos de gestão de riscos.
A atuação preventiva também pode envolver análise documental, revisão de responsabilidades internas e integração das novas exigências às estruturas de governança já existentes.
O objetivo é permitir que empresários e administradores acompanhem as mudanças regulatórias sem depender de medidas improvisadas quando a fiscalização ocorrer.
Conclusão
A suspensão temporária das sanções relacionadas aos riscos psicossociais da NR-1 oferece às empresas mais tempo, mas não elimina a necessidade de preparação.
O STF reconheceu a importância de maior objetividade nos critérios que podem fundamentar penalidades e abriu espaço para uma solução consensual sobre a aplicação das regras.
Para as empresas, esse período deve ser utilizado estrategicamente.
Revisar procedimentos, treinar gestores, integrar departamentos e fortalecer documentação pode reduzir riscos quando houver maior definição sobre os critérios de fiscalização.
Em matéria de compliance, ganhar tempo somente representa uma vantagem quando esse tempo é utilizado para se preparar.
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